Segunda-feira, Março 24, 2008

estrondo infrassônico:
explodiu tudo em silêncio.

restou cacos de ti
e sobre ti, eu mesmo.

(eu senti tuas mãos: foram verdade, como o prazer dos algozes)

não conjuguei nada que não fosse 'amar',
e o fiz com a fome dos tigres de Dali.

na epiderme da quase-noite
onde a chuva, longe, anuncia tua chegada
ficaram meu anseio e teu perfume na cauda do vento -
zombaram do meu gole de café e da minha dignidade manchada

nada desfaz tua falta
nada disfarça tua falta -e
olho a rua como adivinhasse teu semblante
e não vive nada mais nesse instante
que o medo impotente dessa lua alta

Sexta-feira, Março 14, 2008

num jk na travessa da paz, dez minutos antes do temporal.

abri os olhos, vi que o dia tardava em chegar. mas a claridade vermelha do céu nublado entrava pela janela, refletia no seu rosto, na ponta dos dedos da mão. pude vê-la em quadros, nunca uma coisa só, mas frames de alguns pedaços, alguns contextos. nada mais. suspirei devagar para não acordá-la e fechei os olhos para não ser testemunha daquela paisagem que invadia tudo sem meu consentimento. estava entregue ao sono e completa. eu estava entregue a ela e tudo ainda para ser preenchido.

Domingo, Março 09, 2008

Edifício Solon e o Bestiário de Cortázar

No edifício Solon da Rua Jacinto Gomes, o engenheiro químico Urbano intenta adormecer na rede da sacada, com os olhos perdidos nos outros prédios art nouveau, iguais ao que ele morava. Às vezes volta para o Bestiário de Cortázar, lendo alguma página ao acaso que o faça distrair-se. Pensa nos tempos da faculdade, em que estudava engenharia e letras simultaneamente, quando escrevia belos contos (eram belos, dizia sua esposa desde sempre); uma linguagem muito técnica, simétrica, exata. Na tradição judaica era um impositivo escolher, por ordem, direito, medicina ou engenharia. Não suportava sangue; também não suportava seu pai esquizofrênico vociferando trechos de Kafka nos ultimos anos de vida. Ser engenheiro seria bom; João Cabral de Melo Neto era engenheiro, e nem por isso deixou de ser um grande escritor, pensou. Além do mais, o cálculo é neutro e as experiências de laboratório também. Não seria preciso tomar partido de nada, salvar a vida ou defender algum general responsável pela tortura de alguns de seus amigos. Com o tempo os cálculos e um estágio em uma refinaria foram apagando sua criatividade de escrever, tirando sua capacidade de admirar a arquitetura da cidade e de jogar uma tarde preparando uma aula de literatura hispânica para o ensino secundário. Pensava isso todos os dias pela manhã, antes de subir no ônibus da empresa petroleira que o empregara há 20 anos. Urbano, porém, ainda admirava Alberti e Garcia Lorca e ouvia com seu filho os discos de vinil em que Carlos Drummond recitava seu poemas. Neles, ainda podia viver o literato que não conseguiu tornar-se. E quando se entediava demais, respirava fundo, abria ao acaso o Bestiário de Cortázar buscando alguma frase que o distraísse.

Tempo/Espaço navegando em todos os sentidos

Tempo: Cartas não lidas, rasgadas, amassadas, esquecidas em alguma caixa de sapato. Recados no muro, no quadro-negro, na caixa postal. Uma frase riscada a giz na pedra grês. Um bilhete perdido em um livro. Uma canção sem melodia entre contas de luz e água. Um disco dos Beatles que repete mil vezes um tempo que é vivo e que morreu há anos atrás. Espaço: Paisagens ordinárias. Um corredor de apartamento. Uma esquina do Menino Deus. O barulho da chuva no telhado que ecoa pela velha casa da rua Garibaldi. Composições geométricas em vermelho e branco desbotados de um passeio antigo. O velho pintor que rabisca um casal de amantes na praça Vallermoso, em Madrid. Os olhos que se perderam no quadro de Magrite. Um amor prestes a acontecer, na janela de um café da rua Fernandes Vieira. Um amor prestes a desacontecer, sob um guarda-chuva, sobre a ponte do rio Lifey. Aquilo que se sente quando se avista a torre numa tarde chuvosa em Montmartre. O quarto que cresce quando o silêncio chega com a noite. Uma geografia tanto imaginária quanto real, como um bilhete nunca lido ou uma paisagem solitária; não houve testemunhas mas ninguém pode afirmar sua inexistência.

25/06/78, por debaixo da porta do apartamento 304 do Prédio Vicenza na rua Jerônimo de Ornellas.


Estou sentado no chão do corredor, ao lado da porta da tua casa, te escrevendo esta carta. Engraçado que trouxe caneta e papel comigo, como se algo me dissesse que não te encontraria; não ia agüentar mais cinco minutos sem dizer ou escrever. E mais engraçado ainda que não consigo achar graça em toda hora me levantar do chão para ligar a luz do corredor. Tu sabe que eu odeio o escuro. Acordei essa madrugada e não vi teu rosto; levei alguns minutos para lembrar-me que horas caí no sono e porque acordei a essa hora. Lembrei de tudo que tinhas me dito na noite passada; fiquei olhando o céu vermelho e chuvoso durante muito tempo, até perceber que o compacto do teu pai estava arranhado; “all you neeed is... all you need is... all you need is...” e eu sempre tentava completar a frase, mas a música nunca seguia adiante; eu queria tanto continuar a canção; era um cansaço tão torpe que não consegui mover o braço para pular o refrão pra frente. Eu fiquei pensando em toda essa confusão, todo esse medo espalhado pela cidade, toda noite sem saber se mais hora ou menos hora “eles” vão bater na nossa porta e que vão fazer com a gente. Eu não devia ter te dito aquilo; não devia ter dito que vou continuar me arriscando nessa loucura, que não tenho medo. Na verdade eu tenho muito mais medo de dizer que te amo, do que ficar espalhando aqueles panfletos na saída da faculdade. Mas eu te entendi e espero que ainda seja tempo. Não quero mais ficar aqui, não quero mais viver isso. A cada mês que passa é um ou dois da turma que some ou volta com o rabo entre as pernas. Não vamos passar por isso; não vou te deixar levarem. Eu vim aqui dizer isso. Eu te amo e meu amor por ti é muito maior que toda aquela função. Essa madrugada eu peguei todos os panfletos, jornais e coisas do diretório, corri três quadras feito um louco com a mochila nas costas e joguei tudo dentro de um bueiro. Depois cheguei aqui, ainda ofegante... mesmo assim não consigo parar de acender um cigarro atrás do outro. Se teu vizinho me descobre vai me dar um esporro. Mari, eu te entendi, vamos parar com isso, vamos esperar passar tudo. A mãe e o tio Neto ligaram; eles disseram que estão preocupados com a gente mas que daqui um tempo, máximo em cinco ou seis anos, essa palhaçada vai acabar e teu pai vai poder voltar. Ninguém vai ser herói de nada; eu não quero ser herói de nada - ainda mais agora que tu pode estar esperando nosso filho. Nos formamos no final do ano; voltamos pra serra e vamos dar aula em alguma escola. De dor e alegria só quero a vida ordinária; acordar de um pesadelo e poder voltar a dormir quando enxergar teu rosto entregue ao sono; cuidar da saúde do tio para que ele viva alegre nos anos que lhe resta. All (we) need is... eu quero conseguir completar essa frase.

Vou te procurar na casa da Lorena quando amanhecer; se chegares antes me liga porque estou preocupado. Espero que estejas bem.

Teu