Domingo, Março 09, 2008

Edifício Solon e o Bestiário de Cortázar

No edifício Solon da Rua Jacinto Gomes, o engenheiro químico Urbano intenta adormecer na rede da sacada, com os olhos perdidos nos outros prédios art nouveau, iguais ao que ele morava. Às vezes volta para o Bestiário de Cortázar, lendo alguma página ao acaso que o faça distrair-se. Pensa nos tempos da faculdade, em que estudava engenharia e letras simultaneamente, quando escrevia belos contos (eram belos, dizia sua esposa desde sempre); uma linguagem muito técnica, simétrica, exata. Na tradição judaica era um impositivo escolher, por ordem, direito, medicina ou engenharia. Não suportava sangue; também não suportava seu pai esquizofrênico vociferando trechos de Kafka nos ultimos anos de vida. Ser engenheiro seria bom; João Cabral de Melo Neto era engenheiro, e nem por isso deixou de ser um grande escritor, pensou. Além do mais, o cálculo é neutro e as experiências de laboratório também. Não seria preciso tomar partido de nada, salvar a vida ou defender algum general responsável pela tortura de alguns de seus amigos. Com o tempo os cálculos e um estágio em uma refinaria foram apagando sua criatividade de escrever, tirando sua capacidade de admirar a arquitetura da cidade e de jogar uma tarde preparando uma aula de literatura hispânica para o ensino secundário. Pensava isso todos os dias pela manhã, antes de subir no ônibus da empresa petroleira que o empregara há 20 anos. Urbano, porém, ainda admirava Alberti e Garcia Lorca e ouvia com seu filho os discos de vinil em que Carlos Drummond recitava seu poemas. Neles, ainda podia viver o literato que não conseguiu tornar-se. E quando se entediava demais, respirava fundo, abria ao acaso o Bestiário de Cortázar buscando alguma frase que o distraísse.

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