25/06/78, por debaixo da porta do apartamento 304 do Prédio Vicenza na rua Jerônimo de Ornellas.
Estou sentado no chão do corredor, ao lado da porta da tua casa, te escrevendo esta carta. Engraçado que trouxe caneta e papel comigo, como se algo me dissesse que não te encontraria; não ia agüentar mais cinco minutos sem dizer ou escrever. E mais engraçado ainda que não consigo achar graça em toda hora me levantar do chão para ligar a luz do corredor. Tu sabe que eu odeio o escuro. Acordei essa madrugada e não vi teu rosto; levei alguns minutos para lembrar-me que horas caí no sono e porque acordei a essa hora. Lembrei de tudo que tinhas me dito na noite passada; fiquei olhando o céu vermelho e chuvoso durante muito tempo, até perceber que o compacto do teu pai estava arranhado; “all you neeed is... all you need is... all you need is...” e eu sempre tentava completar a frase, mas a música nunca seguia adiante; eu queria tanto continuar a canção; era um cansaço tão torpe que não consegui mover o braço para pular o refrão pra frente. Eu fiquei pensando em toda essa confusão, todo esse medo espalhado pela cidade, toda noite sem saber se mais hora ou menos hora “eles” vão bater na nossa porta e que vão fazer com a gente. Eu não devia ter te dito aquilo; não devia ter dito que vou continuar me arriscando nessa loucura, que não tenho medo. Na verdade eu tenho muito mais medo de dizer que te amo, do que ficar espalhando aqueles panfletos na saída da faculdade. Mas eu te entendi e espero que ainda seja tempo. Não quero mais ficar aqui, não quero mais viver isso. A cada mês que passa é um ou dois da turma que some ou volta com o rabo entre as pernas. Não vamos passar por isso; não vou te deixar levarem. Eu vim aqui dizer isso. Eu te amo e meu amor por ti é muito maior que toda aquela função. Essa madrugada eu peguei todos os panfletos, jornais e coisas do diretório, corri três quadras feito um louco com a mochila nas costas e joguei tudo dentro de um bueiro. Depois cheguei aqui, ainda ofegante... mesmo assim não consigo parar de acender um cigarro atrás do outro. Se teu vizinho me descobre vai me dar um esporro. Mari, eu te entendi, vamos parar com isso, vamos esperar passar tudo. A mãe e o tio Neto ligaram; eles disseram que estão preocupados com a gente mas que daqui um tempo, máximo em cinco ou seis anos, essa palhaçada vai acabar e teu pai vai poder voltar. Ninguém vai ser herói de nada; eu não quero ser herói de nada - ainda mais agora que tu pode estar esperando nosso filho. Nos formamos no final do ano; voltamos pra serra e vamos dar aula em alguma escola. De dor e alegria só quero a vida ordinária; acordar de um pesadelo e poder voltar a dormir quando enxergar teu rosto entregue ao sono; cuidar da saúde do tio para que ele viva alegre nos anos que lhe resta. All (we) need is... eu quero conseguir completar essa frase.
Vou te procurar na casa da Lorena quando amanhecer; se chegares antes me liga porque estou preocupado. Espero que estejas bem.
Teu

2 Comments:
a cada dia me apaixono mais por seus escritos.
sim, me apaixono, porque escreves com tamanhas leveza e precisão que me tocam no fundo, lá no fundinho.
quisera eu ser sabida assim.
tá sumido, apareça.
beijos
eu sempre senti que viva no ano errado, no tempo errado, pra ser mais sincera na década errada.
e vc tem essa, incrível, capacidade de me fazer sentir isso com mais força ainda.
tenho medo (ou não) de vc.
aff, como eu sou faladeira.
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