(aniversário de uma carta amarelada dentro de um livro de drummond da biblioteca pública municipal)
poa, bomfim, 17/02/1978
agora cansei de ser suas fotos. cansei das cordas de nylon. não trazem o brilho que desejo. não fazem o mi maior soar tão bonito. suspiro desde a janela e algo sobe pela garganta quando vejo que antes do sol ir definitivo já brilha uma estrela. eu poderia fazer mil analogias com essa cena; tentar descobrir (n) mistérios com uma rotineira experiência estética; poderia fazer uma nova música (quantas já fiz por motivos tão mais banais... e elas parecem tão especiais; certamente a arte é o dom de fazer o belo do banal); poderia voltar pros teus albuns e procurar o mesmo céu em alguma das fotos em que não estou (não estou em nenhuma). mas não, como já disse, cansei de sê-las. vou pra rua; ainda é fevereiro e já não meço minha ansiedade pelo outono nessa cidade em que poucas coisas são bonitas, com exceção do teus olhos negros.
eu não ia te contar, mas essa noite me acordei às 5hs da manhã com eles dentro dos meus; era uma escuridão no quarto e os teus olhos vertiam naquela escuridão e mesmo eu fechando os
olhos ainda era a mesma escuridão que me invadia. acendi todas as luzes da casa, abri a porta
do pátio e ainda era noite. acordei no sofá com a estrela-mãe na cara. fiquei uns minutos
olhando fixo pra ele e quando voltei a olhar a parede branca, era um círculo negro - pequeno,
mas igual ao do quarto, igual aos teus olhos.
vou pra rua; ainda é fevereiro, não está frio, mas há uma lua lá que nasce por entre prédios e árvores; alguém ouve cat stevens; o som vem de uma janela e só vejo a mão com um cigarro na sala escura; é uma do cat stevens que mais gosto, quero cantarolar essa canção. mas não. vou alternando randômicamente entre olhar pro clarão da lua nos prédios e pras formas geométricas desenhadas nos passeios antigos. não quero pensar em nada, nada considerar, nada opinar. somente ser parte dessa rua enquanto ela existe e eu existo nela. não quero pensar no teu rosto, teu sorriso largo que aparece em cada sacada dessa rua, como se me convidasse a pensar como seria... como seria... (como seria?).

2 Comments:
Adorei essa carta!
Fantástica!
Já que eu tô falando mesmo vou continuar:
Adorei estar na sua lista de blogs...
Aeeeeeeeeeee
E a propósito, que é a "outra Marina"?
E vc tem msn ou algum congênere?
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