a lua que ao te ver parece grata, me aceita com a forma de um sorriso. (Vítor Ramil)
implicações de uma alma templadista ao primeiro dia de outono.
nas noites de sábado não costumo sair de casa - principalmente se o céu está limpo e se há lua. gosto de me sentir (ou me acreditar) como uma das poucas pessoas da minha geração que pensam assim. gosto de saber que há um movimento tremendo de corpos, cores e cheiros pela cidade baixa e moinhos de vento, enquanto permaneço em silêncio, deitado no chão do pátio, olhando o céu do bonfim. há uma musicalidade absurda nesse silêncio; acordes dissonantes nascem e passam como cumulus no céu em meio a outros, mais abertos, quando o céu é profundo e a geometria das estrelas faz possível perceber a concavidade da abóbada celeste. muitas vezes não há outro lugar melhor para estar do que na completa solidão e ao mesmo tempo vigiado por toda a galáxia. assim fico, com a alma imóvel, atento a um movimento que é mais quietude do que silêncio - pois não é a ausência de sons, um ruído branco, mas sim uma paisagem sonora minimalista, econômica em timbres e escalas. fico emocionado com o vento que só existe através do barulho das folhas. o céu deste quase-março anuncia que em breve chegará o outono e não precisarei mais conjurar-me de toda essa tropicalidade forçada. a palavra sexo já fará parte de um outro léxico que não incluirá, obrigatoriamente, suor, carnaval, funk e cerveja-de-má-qualidade; assim como praia poderá significar descanso ao invés de congestionamento e sujeira. com certeza até maio haverá alguns shows de nei lisboa e também de vitor ramil. com certeza estará eleito o novo presidente dos estados unidos e isso não vai mudar em nada para melhor o curso da história. com certeza o vinho gaúcho vai continuar mais caro que o chileno e o argentino (e isso agradeceremos). com certeza o céu ficará carmim no entardecer da redenção; a geografia cotidiana voltará ao normal - as dores e os sorrisos, a morte e a vida, o ódio e o amor, o homem e a mulher, o homem e o homem, a mulher e a mulher, a tarde quente e a noite fria, a universidade e a burrice (cada vez mais) rentável, deus e o diabo, separações e (re)encontros. com certeza dois olhos negros vão revirar minha cabeça e poderei me apaixonar por uma nova voz, por um novo sorriso, por duas mãos femininas condescendentes sobre meu rosto, as mesmas que beijei quando ainda eram de uma linda desconhecida, provocando-me uma tempestade e uma vontade desenfreada de crescer como o céu do pampa na alvorada – como essa quietude avassaladora que me preenche enquanto perco meus olhos no céu profundo ou na porção sombreada da lua.

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