12 segundos de oscuridad o más
rasguei tudo que tínhamos. fotos, cartas, cartoes, tudo. esperei muito tempo para fazer isso, uma boa dezena de meses. em uma tarde acinzentada que nada explicava, respirei fundo, desci a caixa de papelão do armário. considerei tudo e rasguei coisa por coisa enquanto caíam tormentas de mim, borrando teus desenhos e cartas feitas a lápis de cor. não deixei de ler nada antes de me despedir delas; lí tudo, me lembrei de tudo, trouxe pares de anos em punhados de minutos, apoiei meus cotovelhos nos joelhos querendo desistir - mas lí tudo, sentí tudo novamente. As fotos por último, rasguei-as e joguei-as pelo chão do quarto. nele, pedaços de braços, metades de sorrisos, fragmentos de céu do parque, mil olhos me vigiando de todos os ângulos, de todos os tamanhos, me sorrindo de todas as formas.
chovia torrencialmente dentro e fora do quarto. e a parte mais difícil foi o peso de juntar os fragmentos com as duas mãos e colocá-los fora, enquanto tocava o sino das 18hs. era a hora dos corvos e eu e o céu soluçávamos juntos, condescendentes.
