Quinta-feira, Fevereiro 22, 2007

interminável caminhada pelo paseo castellana


coches me ultrapassam.
trens e metros sob meus pés.
avioes me cruzam.
helicopteros me espreitam.
tudo é velocidade, pressa e anseio ao meu redor.

mas eis que vou pelo paseo,
e piers faccinni me sonoriza,
absorto nesses mil postes por hora apagados,
e as árvores sem folhas num túnel interminável
me fazem crescer como a planície,
a despeito das arquiteturas que insistem em diminuir-me.

sou maior que esses prédios,
muito mais veloz que os avioes,
àgua mais pura que da fuente de netuno,
azul demasiado natural que desses prédios.

pois aos poucos aprendi a voar de pés no chao,
vencer continentes ao olhar o céu,
verter nos olhos rios e mares de saudade,
e acender meu pròprio sol, quando é dia cinza.

Quinta-feira, Fevereiro 15, 2007

alguém rasga uma carta de amor,
joga ao ar e cai nos trilhos
com o vácuo do trem que passa.

maos tremulas ao telefone,
atrapalhadas para acender o cigarro:
seres que nao olham para o céu azul e para a serra próxima
- como aspirar alegria?

Domingo, Fevereiro 11, 2007

Chispas de luz caem do céu:
- Nada. É só uma chuva.
Nada comparado a essas torrentes que arrasam cidades em mim.

Agora sou desses subways e também de parques verdes.
Antes, apenas areia e sóis
- porém agora também velhos trens em busca da neve.

E sigo acumulando paisagens,
tatuando naturezas na alma,
vertendo lugares e espacos,
como os bons livros de Geografia.

Viver é mapear-se.

Sexta-feira, Fevereiro 09, 2007

No metro em Madrid
rostos tristes, almas angustiadas,
mas vejo que alguém sorriu
ao subir as escadas rolantes.

A luz subterranea me atinge
e caminho contra um mar de gente,
pois as multidoes me que atravessam abaixo do solo,
como rios, correm por baixo da terra,
sem alarde.

Vejo que Deus e a Natureza das Coisas estao presente em toda parte;
na pedra, no fim da rua,
nesse exílio, nos lugares que deixei,
nos coracoes daqueles por quem ainda choro.

Pois que ao ver cada árvore depenada do inverno
e o solo coberto de concreto,
tal um corpo com poros fechados sem meios de respirar,
vejo que tudo habita em tudo
e meus olhos agora sao meus, dessa outra cidade,
da cidade que deixei e dos céus e mares vencidos.

E uma fagulha de luz desponta dos meus olhos.
Sem testemunhas ela alcanca a neve, que longe habita a serra.
Ignota, ela apenas será luz, para o consolo das lágrimas.