Caiu o último dedo sobre a última nota na tecla do piano. Minha mão está vazia outra vez; o cantor olha e sorri pra platéia enquanto canta. Eu choro um choro seco. Vôo por Porto Alegre cinza, com vento gelado e úmido que anuncia chuva; um par se beija no camarote lateral; um velho se embala com a cabeça; continuo voando; vou para todos os quatro pontos cardeais da cidade; sou eu na janela da família na av. São Pedro; sou eu que sopro na beira de Ipanema; sou eu a fumaça da chaminé no Partenon; sou eu que caminho sozinho; sou eu que canto sozinho; sou eu, sozinho, de novo, no teatro, tentando viver sem medo novamente.
E quando o choro umidece, ainda sem saber, o cantor ao piano olha para o escuro do teatro, e como se olhasse pra mim, diz:
"se meu mundo cair
eu que aprenda a levitar"
(Zé Wisnik)

