Terça-feira, Junho 27, 2006

Respiro o ar puro da serra. Uma botella de vino na minha mão. Olho a paisagem noturna. Colinas, araucárias e um cheiro de ar úmido de verão. Não está frio. Há barulho do rio, logo abaixo. Tomo mais um gole de vinho... me sinto angustiado, meu peito dispara, mesmo com o silencio absoluto... é muita natureza, muita informação para uma cabecinha tão poluída pelas urbanidades. Estou nervoso, pois, de estar conectado com a natureza - a qual não faz parte do meu cotidiano. O quão longe estamos de sermos felizes vivendo nas cidades grandes. O quão longes estamos de viver em uma cidade sadia, com ar sadio, ruas sadias, pessoas sadias e mentes sãs. O quão longe estou de ser são.

Robo uma bergamota de um pomar aberto. Me sento frente à araucária. Sua fronde, aquela fortaleza de galhos e folhas, que mal balança com todo esse vento. Devíamos ser mais araucárias na vida, mas temos sido sempre um tipo de trepadeira, que precisa se agarrar em algo.

Ponho os pés no ônibus. Hora de voltar. Vejo a paisagem uma última vez. Los Hermanos faz minha trilha sonora (concluo: "sereno é quem tem a paz de estar em par com Deus). Chove. Penso na natureza, penso na minha namorada, penso na chuva e quem dela não conseguiu escapar, nas lareiras que se acendem. Agora é frio de vez.

Na mochila muitas laranjas do céu; assaltei o pomar do gringo.

Perdoa-nos, mas em Porto Alegre não temos frutas com gosto de orvalho.

Terça-feira, Junho 13, 2006

é bom saber
que és parte de mim
assim como és
parte das manhãs
(Estrela, Estrela.; V. Ramil)

Dois pares de olhos se encontraram. Não tocou música, não foi nada mágico na hora. A mágica, na verdade, é o acúmulo de vitórias, de lágrimas enxugadas, de confissões ao pé do ouvido diariamente, de beijos pelo ônibus que viaja ao litoral, no descampado da serra. Mágica é o encontro e o reencontro. É o coração na despedida. É a manhã, aquecidos na cama. Tamara, esse texto é pra ti.

Não há sinos, não há uma música só, nem um poema específico. Isso é para os amantes de última hora, que precisam se apegar em algo para manter sua lembrança. Não precisamos disso. Amor é quando todas as boas músicas, poemas e livros nos lembram a mesma pessoa. Não é um perfume, mas o próprio cheiro da vida, o aroma dos parques, o vento gelado, das ondas batendo nas pedras. A mágica é a própria estrada de descobrir o que há de melhor em quem se ama.

Estar aqui, encarnado nesse mundo, experimentando todas as dores e alegrias, é bem melhor quando temos um anjo visível; alguém que sendo humano erra, e por isso te vejo em mim e me vejo em ti. E vamos caminhando assim, apesar do mundo e pelo mundo, felizes pela oportunidade de estarmos juntos e de quem sabe nos reencontrarmos nessa matéria condensada e transitória quantas vezes forem necessárias. Até que possamos sair daqui vendo o mundo em paz. Já não me amendronto com o tempo. Somos, no presente, o passado adquirido e o futuro compartilhado. Sou, pois, parte do teu tempo, assim como és parte do meu. E não há nada melhor do que estar no tempo com você.

Te amei ontem e vou te amar amanhã ainda mais. Por isso que, hoje, te amo tudo o que posso.

Quinta-feira, Junho 08, 2006

As luzes da cidade e o porquê de se estar em lugar que não é o aqui

Volto da aula, quase sempre às 22hs, cruzo o trecho leste-oeste, pela av. Bento Gonçalves, diariamente. Viajando de ônibus, sobre a inclinação do maciço portoalegrense, uma visão panôramica da região norte aparece, cada vez que há uma esquina, um prédio baixo ou um descampado. São poucos segundos de "mirada" daquela vista. Ao olhar para o norte está o vale (onde a av. Ipiranga é o talvegue, ou seja, o fundo do vale) e logo atrás outro maciço, onde se encontra os bairros Petrópolis, Jardim Botânico, Rio Branco, Santa Cecília e Bela Vista. É lá, onde está o mar de luzes suspensas à noite, a chuva de janelas iluminadas. Elas, as luzes, nos espiam, cada vez que passamos por uma esquina. É um relevo indizível: uma rua desce em suave declive e seu horizonte desvenda o mundaréu de prédios iluminados. Por alguma razão, vez em quando, sinto vontade de estar lá em algum lugar da paisagem, de ser a história sob aquelas luzes e ruas arborizadas. Na verdade eu sou uma delas quando alguém, de alguma maneira, vê a luz da minha janela no Menino Deus. Então sou uma história querendo ser outra, enquanto outra quer ser a minha.


A tarde de sexta-feira: o ritmo revela o espírito

e gosto de estar no ar
bem devagar
no ar
fáci de ver
(Nosso sr. do Bom Fim, Nei Lisboa)


Às sextas-feiras, saio do trabalho por volta das 18hs e sigo pra casa. Desço a r. Ijuí e vejo a parede de prédios luxuosos a minha frente. Na verdade eu desço por outra parede de prédios. Já está anoitecendo e vi da sala onde trabalho o por-do-sol pelo reflexo dos vidros dos prédios (o que convenhamos é uma lástima sem precedente). Aos poucos vou descendo a ladeira, que aponta para a torre telefônica da Bela Vista. Pego um ônibus na Nilópolis e sigo para o Bom Fim. Eu podia descer muito mais perto de casa, mas quero ir pra lá... quero andar. Desço na Redenção, aquela movimentação de pessoas voltando para seus lares (ah, o doce lar), buscando seus filhos nas creches, caminhando em volta do parque, tomando um chimarrão sentado no meio-fio, vendo a sexta-feira arder em caos. Posso atalhar, mas não... eu realmente quero caminhar; quero e preciso, me alimentar do cotidiano do outro, para aos poucos enxergar o meu.

Vou pra Jerônimo de Ornelas, na Santana. Gosto de andar lá. Quando eu morar sozinho, ou me juntarme con alguien, vou morar lá: Vieira de Castro, esquina com Ornelas, naquele prédio que tem uma sacada italiana com várias plantas e de frente pra praça. As pessoas caminham nas ruas paralelas à Osvaldo como se estivessem no Jardim Vila Nova; ali é quase um "centro" mas ainda é um bairro. As pessoas levam suas sacolas para comprar na mercearia; as frutas estão nas caixas invadindo um pouco da calçada, o dono da venda conhece as pessoas pelo nome; ainda há (vejam só que subversão) caderninho de conta. E as pessoas pagam; ele - o caderninho - ainda funciona. Duas velhinhas caminham com suas compras. Uma mulher entra no carro que pára na esquina. Uma estudante de jornalismo vai para aula (jornalistas reconhecemos pelos óculos e tênis, um dia explico). Um estudante de geografia vai pra casa.


Há no início das noites de sexta-feira uma atmosfera inexplicável, algo como um suspiro, como um "ufa, acabou". Nela, desponta o frio na barriga daqueles humanos saem a noite para procurarem seus pares, encontrarem seus amigos, recostarem-se na cama para descansar da semana estafante. Há no ar algo que anuncia tudo isso e não é preciso muitas aulas de geografia urbana, nem ser muito esperto para perceber isso.

Está no ar a atmosfera enigmática e a promessa de dois dias decentes de descanso e diversão. É preciso achar uma maneira de viver com essa surpresa e esse pequeno mistério. De perceber que a vida é um ciclo interminável, e como ciclo, repetitivo. Mas há de se tirar desse suspiro toda a força para continuar a caminhada. Sentir o prazer de ser andarilho pela rua que gostamos. Ter um lugar na calçada, no olho de cada um que passa, nas luzes que brilham nessa cidade cheia de contradições.

Temos, ainda, o direito de vivermos nosso mundo interno. Não alienado, mas um mundo de vontades e convicções internas, de sentimentos e de territorialidades onde se conjectura nossa personalidade. Temos o direito, temos o dever, pois, de sermos construtores de nosso mundo psíquico, de nossa atmosfera espiritual, à despeito do que os outros esperam que sejamos.

Somos, porque não há outra opção e outro dever a não ser que sejamos nós mesmo, custe o que custar e dure o tempo que fôr. Somos, porque não há outra maneira de viver senão no sonho de sermos o agora eternamente.