As luzes da cidade e o porquê de se estar em lugar que não é o aquiVolto da aula, quase sempre às 22hs, cruzo o trecho leste-oeste, pela av. Bento Gonçalves, diariamente. Viajando de ônibus, sobre a inclinação do maciço portoalegrense, uma visão panôramica da região norte aparece, cada vez que há uma esquina, um prédio baixo ou um descampado. São poucos segundos de "mirada" daquela vista. Ao olhar para o norte está o vale (onde a av. Ipiranga é o talvegue, ou seja, o fundo do vale) e logo atrás outro maciço, onde se encontra os bairros Petrópolis, Jardim Botânico, Rio Branco, Santa Cecília e Bela Vista. É lá, onde está o mar de luzes suspensas à noite, a chuva de janelas iluminadas. Elas, as luzes, nos espiam, cada vez que passamos por uma esquina. É um relevo indizível: uma rua desce em suave declive e seu horizonte desvenda o mundaréu de prédios iluminados. Por alguma razão, vez em quando, sinto vontade de estar lá em algum lugar da paisagem, de ser a história sob aquelas luzes e ruas arborizadas. Na verdade eu sou uma delas quando alguém, de alguma maneira, vê a luz da minha janela no Menino Deus. Então sou uma história querendo ser outra, enquanto outra quer ser a minha.
A tarde de sexta-feira: o ritmo revela o espíritoe gosto de estar no ar
bem devagar
no ar
fáci de ver
(Nosso sr. do Bom Fim, Nei Lisboa)
Às sextas-feiras, saio do trabalho por volta das 18hs e sigo pra casa. Desço a r. Ijuí e vejo a parede de prédios luxuosos a minha frente. Na verdade eu desço por outra parede de prédios. Já está anoitecendo e vi da sala onde trabalho o por-do-sol pelo reflexo dos vidros dos prédios (o que convenhamos é uma lástima sem precedente). Aos poucos vou descendo a ladeira, que aponta para a torre telefônica da Bela Vista. Pego um ônibus na Nilópolis e sigo para o Bom Fim. Eu podia descer muito mais perto de casa, mas quero ir pra lá... quero andar. Desço na Redenção, aquela movimentação de pessoas voltando para seus lares (ah, o doce lar), buscando seus filhos nas creches, caminhando em volta do parque, tomando um chimarrão sentado no meio-fio, vendo a sexta-feira arder em caos. Posso atalhar, mas não... eu realmente quero caminhar; quero e preciso, me alimentar do cotidiano do outro, para aos poucos enxergar o meu.
Vou pra Jerônimo de Ornelas, na Santana. Gosto de andar lá. Quando eu morar sozinho, ou me
juntarme con alguien, vou morar lá: Vieira de Castro, esquina com Ornelas, naquele prédio que tem uma sacada italiana com várias plantas e de frente pra praça. As pessoas caminham nas ruas paralelas à Osvaldo como se estivessem no Jardim Vila Nova; ali é quase um "centro" mas ainda é um bairro. As pessoas levam suas sacolas para comprar na mercearia; as frutas estão nas caixas invadindo um pouco da calçada, o dono da venda conhece as pessoas pelo nome; ainda há (vejam só que subversão) caderninho de conta. E as pessoas pagam; ele - o caderninho - ainda funciona. Duas velhinhas caminham com suas compras. Uma mulher entra no carro que pára na esquina. Uma estudante de jornalismo vai para aula (jornalistas reconhecemos pelos óculos e tênis, um dia explico). Um estudante de geografia vai pra casa.
Há no início das noites de sexta-feira uma atmosfera inexplicável, algo como um suspiro, como um "ufa, acabou". Nela, desponta o frio na barriga daqueles humanos saem a noite para procurarem seus pares, encontrarem seus amigos, recostarem-se na cama para descansar da semana estafante. Há no ar algo que anuncia tudo isso e não é preciso muitas aulas de geografia urbana, nem ser muito esperto para perceber isso.
Está no ar a atmosfera enigmática e a promessa de dois dias decentes de descanso e diversão. É preciso achar uma maneira de viver com essa surpresa e esse pequeno mistério. De perceber que a vida é um ciclo interminável, e como ciclo, repetitivo. Mas há de se tirar desse suspiro toda a força para continuar a caminhada. Sentir o prazer de ser andarilho pela rua que gostamos. Ter um lugar na calçada, no olho de cada um que passa, nas luzes que brilham nessa cidade cheia de contradições.
Temos, ainda, o direito de vivermos nosso mundo interno. Não alienado, mas um mundo de vontades e convicções internas, de sentimentos e de territorialidades onde se conjectura nossa personalidade. Temos o direito, temos o dever, pois, de sermos construtores de nosso mundo psíquico, de nossa atmosfera espiritual, à despeito do que os outros esperam que sejamos.
Somos, porque não há outra opção e outro dever a não ser que sejamos nós mesmo, custe o que custar e dure o tempo que fôr. Somos, porque não há outra maneira de viver senão no sonho de sermos o agora eternamente.