Quinta-feira, Abril 03, 2008

(da série haicores)

branco é o céu,
se desenhado
no papel.

(da série haicores)

amarelo
é a solitude
do cello.

(da série haicores)

vermelho
é o mercúrio
contra as nuvens.

(da série haicores)

verde
é o quadro
negro.

Segunda-feira, Março 24, 2008

estrondo infrassônico:
explodiu tudo em silêncio.

restou cacos de ti
e sobre ti, eu mesmo.

(eu senti tuas mãos: foram verdade, como o prazer dos algozes)

não conjuguei nada que não fosse 'amar',
e o fiz com a fome dos tigres de Dali.

na epiderme da quase-noite
onde a chuva, longe, anuncia tua chegada
ficaram meu anseio e teu perfume na cauda do vento -
zombaram do meu gole de café e da minha dignidade manchada

nada desfaz tua falta
nada disfarça tua falta -e
olho a rua como adivinhasse teu semblante
e não vive nada mais nesse instante
que o medo impotente dessa lua alta

Sexta-feira, Março 14, 2008

num jk na travessa da paz, dez minutos antes do temporal.

abri os olhos, vi que o dia tardava em chegar. mas a claridade vermelha do céu nublado entrava pela janela, refletia no seu rosto, na ponta dos dedos da mão. pude vê-la em quadros, nunca uma coisa só, mas frames de alguns pedaços, alguns contextos. nada mais. suspirei devagar para não acordá-la e fechei os olhos para não ser testemunha daquela paisagem que invadia tudo sem meu consentimento. estava entregue ao sono e completa. eu estava entregue a ela e tudo ainda para ser preenchido.

Domingo, Março 09, 2008

Edifício Solon e o Bestiário de Cortázar

No edifício Solon da Rua Jacinto Gomes, o engenheiro químico Urbano intenta adormecer na rede da sacada, com os olhos perdidos nos outros prédios art nouveau, iguais ao que ele morava. Às vezes volta para o Bestiário de Cortázar, lendo alguma página ao acaso que o faça distrair-se. Pensa nos tempos da faculdade, em que estudava engenharia e letras simultaneamente, quando escrevia belos contos (eram belos, dizia sua esposa desde sempre); uma linguagem muito técnica, simétrica, exata. Na tradição judaica era um impositivo escolher, por ordem, direito, medicina ou engenharia. Não suportava sangue; também não suportava seu pai esquizofrênico vociferando trechos de Kafka nos ultimos anos de vida. Ser engenheiro seria bom; João Cabral de Melo Neto era engenheiro, e nem por isso deixou de ser um grande escritor, pensou. Além do mais, o cálculo é neutro e as experiências de laboratório também. Não seria preciso tomar partido de nada, salvar a vida ou defender algum general responsável pela tortura de alguns de seus amigos. Com o tempo os cálculos e um estágio em uma refinaria foram apagando sua criatividade de escrever, tirando sua capacidade de admirar a arquitetura da cidade e de jogar uma tarde preparando uma aula de literatura hispânica para o ensino secundário. Pensava isso todos os dias pela manhã, antes de subir no ônibus da empresa petroleira que o empregara há 20 anos. Urbano, porém, ainda admirava Alberti e Garcia Lorca e ouvia com seu filho os discos de vinil em que Carlos Drummond recitava seu poemas. Neles, ainda podia viver o literato que não conseguiu tornar-se. E quando se entediava demais, respirava fundo, abria ao acaso o Bestiário de Cortázar buscando alguma frase que o distraísse.

Tempo/Espaço navegando em todos os sentidos

Tempo: Cartas não lidas, rasgadas, amassadas, esquecidas em alguma caixa de sapato. Recados no muro, no quadro-negro, na caixa postal. Uma frase riscada a giz na pedra grês. Um bilhete perdido em um livro. Uma canção sem melodia entre contas de luz e água. Um disco dos Beatles que repete mil vezes um tempo que é vivo e que morreu há anos atrás. Espaço: Paisagens ordinárias. Um corredor de apartamento. Uma esquina do Menino Deus. O barulho da chuva no telhado que ecoa pela velha casa da rua Garibaldi. Composições geométricas em vermelho e branco desbotados de um passeio antigo. O velho pintor que rabisca um casal de amantes na praça Vallermoso, em Madrid. Os olhos que se perderam no quadro de Magrite. Um amor prestes a acontecer, na janela de um café da rua Fernandes Vieira. Um amor prestes a desacontecer, sob um guarda-chuva, sobre a ponte do rio Lifey. Aquilo que se sente quando se avista a torre numa tarde chuvosa em Montmartre. O quarto que cresce quando o silêncio chega com a noite. Uma geografia tanto imaginária quanto real, como um bilhete nunca lido ou uma paisagem solitária; não houve testemunhas mas ninguém pode afirmar sua inexistência.

25/06/78, por debaixo da porta do apartamento 304 do Prédio Vicenza na rua Jerônimo de Ornellas.


Estou sentado no chão do corredor, ao lado da porta da tua casa, te escrevendo esta carta. Engraçado que trouxe caneta e papel comigo, como se algo me dissesse que não te encontraria; não ia agüentar mais cinco minutos sem dizer ou escrever. E mais engraçado ainda que não consigo achar graça em toda hora me levantar do chão para ligar a luz do corredor. Tu sabe que eu odeio o escuro. Acordei essa madrugada e não vi teu rosto; levei alguns minutos para lembrar-me que horas caí no sono e porque acordei a essa hora. Lembrei de tudo que tinhas me dito na noite passada; fiquei olhando o céu vermelho e chuvoso durante muito tempo, até perceber que o compacto do teu pai estava arranhado; “all you neeed is... all you need is... all you need is...” e eu sempre tentava completar a frase, mas a música nunca seguia adiante; eu queria tanto continuar a canção; era um cansaço tão torpe que não consegui mover o braço para pular o refrão pra frente. Eu fiquei pensando em toda essa confusão, todo esse medo espalhado pela cidade, toda noite sem saber se mais hora ou menos hora “eles” vão bater na nossa porta e que vão fazer com a gente. Eu não devia ter te dito aquilo; não devia ter dito que vou continuar me arriscando nessa loucura, que não tenho medo. Na verdade eu tenho muito mais medo de dizer que te amo, do que ficar espalhando aqueles panfletos na saída da faculdade. Mas eu te entendi e espero que ainda seja tempo. Não quero mais ficar aqui, não quero mais viver isso. A cada mês que passa é um ou dois da turma que some ou volta com o rabo entre as pernas. Não vamos passar por isso; não vou te deixar levarem. Eu vim aqui dizer isso. Eu te amo e meu amor por ti é muito maior que toda aquela função. Essa madrugada eu peguei todos os panfletos, jornais e coisas do diretório, corri três quadras feito um louco com a mochila nas costas e joguei tudo dentro de um bueiro. Depois cheguei aqui, ainda ofegante... mesmo assim não consigo parar de acender um cigarro atrás do outro. Se teu vizinho me descobre vai me dar um esporro. Mari, eu te entendi, vamos parar com isso, vamos esperar passar tudo. A mãe e o tio Neto ligaram; eles disseram que estão preocupados com a gente mas que daqui um tempo, máximo em cinco ou seis anos, essa palhaçada vai acabar e teu pai vai poder voltar. Ninguém vai ser herói de nada; eu não quero ser herói de nada - ainda mais agora que tu pode estar esperando nosso filho. Nos formamos no final do ano; voltamos pra serra e vamos dar aula em alguma escola. De dor e alegria só quero a vida ordinária; acordar de um pesadelo e poder voltar a dormir quando enxergar teu rosto entregue ao sono; cuidar da saúde do tio para que ele viva alegre nos anos que lhe resta. All (we) need is... eu quero conseguir completar essa frase.

Vou te procurar na casa da Lorena quando amanhecer; se chegares antes me liga porque estou preocupado. Espero que estejas bem.

Teu

Segunda-feira, Fevereiro 25, 2008

esquina com a principal

descia uma procissão pela ladeira Eduardo Galeano, esquina com a principal. um velho e seu chapéu zombavam da multidão; caminhava lento o velho, com um pão de 1/4 e um livro embaixo do braço. a mulher na janela chama uma criança que agarrou uma bandeirola no chão e desceu a ladeira para se juntar-se às outras. alguém corre veloz sob o fio das estrelas, sem sentido e direção, ao som da oração ao longe. na beira do rio um casal tararea no oscuro, toma água com as mãos. um pescador repara uma rede; às vezes ele olha em direção ao clarão da procissão, "pescando a luz com paciência" - suspira lento e celebra a ausência e o folguedo que faz no seu estômago a cada milésima vez que deseja a mesma mulher.

a lua que ao te ver parece grata, me aceita com a forma de um sorriso. (Vítor Ramil)


implicações de uma alma templadista ao primeiro dia de outono.

nas noites de sábado não costumo sair de casa - principalmente se o céu está limpo e se há lua. gosto de me sentir (ou me acreditar) como uma das poucas pessoas da minha geração que pensam assim. gosto de saber que há um movimento tremendo de corpos, cores e cheiros pela cidade baixa e moinhos de vento, enquanto permaneço em silêncio, deitado no chão do pátio, olhando o céu do bonfim. há uma musicalidade absurda nesse silêncio; acordes dissonantes nascem e passam como cumulus no céu em meio a outros, mais abertos, quando o céu é profundo e a geometria das estrelas faz possível perceber a concavidade da abóbada celeste. muitas vezes não há outro lugar melhor para estar do que na completa solidão e ao mesmo tempo vigiado por toda a galáxia. assim fico, com a alma imóvel, atento a um movimento que é mais quietude do que silêncio - pois não é a ausência de sons, um ruído branco, mas sim uma paisagem sonora minimalista, econômica em timbres e escalas. fico emocionado com o vento que só existe através do barulho das folhas. o céu deste quase-março anuncia que em breve chegará o outono e não precisarei mais conjurar-me de toda essa tropicalidade forçada. a palavra sexo já fará parte de um outro léxico que não incluirá, obrigatoriamente, suor, carnaval, funk e cerveja-de-má-qualidade; assim como praia poderá significar descanso ao invés de congestionamento e sujeira. com certeza até maio haverá alguns shows de nei lisboa e também de vitor ramil. com certeza estará eleito o novo presidente dos estados unidos e isso não vai mudar em nada para melhor o curso da história. com certeza o vinho gaúcho vai continuar mais caro que o chileno e o argentino (e isso agradeceremos). com certeza o céu ficará carmim no entardecer da redenção; a geografia cotidiana voltará ao normal - as dores e os sorrisos, a morte e a vida, o ódio e o amor, o homem e a mulher, o homem e o homem, a mulher e a mulher, a tarde quente e a noite fria, a universidade e a burrice (cada vez mais) rentável, deus e o diabo, separações e (re)encontros. com certeza dois olhos negros vão revirar minha cabeça e poderei me apaixonar por uma nova voz, por um novo sorriso, por duas mãos femininas condescendentes sobre meu rosto, as mesmas que beijei quando ainda eram de uma linda desconhecida, provocando-me uma tempestade e uma vontade desenfreada de crescer como o céu do pampa na alvorada – como essa quietude avassaladora que me preenche enquanto perco meus olhos no céu profundo ou na porção sombreada da lua.

Sexta-feira, Fevereiro 22, 2008

na pedra grês de uma calçada, escrito a giz, antes de chegar a chuva, na Rua Fernandes Vieira.

mil frases escreveria
se grande fosse esse giz
larga a vida, como essa calçada
e já não me passa mais nada
que não seja "te amo e sou feliz"

Sábado, Fevereiro 16, 2008

(aniversário de uma carta amarelada dentro de um livro de drummond da biblioteca pública municipal)


poa, bomfim, 17/02/1978

agora cansei de ser suas fotos. cansei das cordas de nylon. não trazem o brilho que desejo. não fazem o mi maior soar tão bonito. suspiro desde a janela e algo sobe pela garganta quando vejo que antes do sol ir definitivo já brilha uma estrela. eu poderia fazer mil analogias com essa cena; tentar descobrir (n) mistérios com uma rotineira experiência estética; poderia fazer uma nova música (quantas já fiz por motivos tão mais banais... e elas parecem tão especiais; certamente a arte é o dom de fazer o belo do banal); poderia voltar pros teus albuns e procurar o mesmo céu em alguma das fotos em que não estou (não estou em nenhuma). mas não, como já disse, cansei de sê-las. vou pra rua; ainda é fevereiro e já não meço minha ansiedade pelo outono nessa cidade em que poucas coisas são bonitas, com exceção do teus olhos negros.

eu não ia te contar, mas essa noite me acordei às 5hs da manhã com eles dentro dos meus; era uma escuridão no quarto e os teus olhos vertiam naquela escuridão e mesmo eu fechando os
olhos ainda era a mesma escuridão que me invadia. acendi todas as luzes da casa, abri a porta
do pátio e ainda era noite. acordei no sofá com a estrela-mãe na cara. fiquei uns minutos
olhando fixo pra ele e quando voltei a olhar a parede branca, era um círculo negro - pequeno,
mas igual ao do quarto, igual aos teus olhos.


vou pra rua; ainda é fevereiro, não está frio, mas há uma lua lá que nasce por entre prédios e árvores; alguém ouve cat stevens; o som vem de uma janela e só vejo a mão com um cigarro na sala escura; é uma do cat stevens que mais gosto, quero cantarolar essa canção. mas não. vou alternando randômicamente entre olhar pro clarão da lua nos prédios e pras formas geométricas desenhadas nos passeios antigos. não quero pensar em nada, nada considerar, nada opinar. somente ser parte dessa rua enquanto ela existe e eu existo nela. não quero pensar no teu rosto, teu sorriso largo que aparece em cada sacada dessa rua, como se me convidasse a pensar como seria... como seria... (como seria?).